Front cover

Risto Santala

MOLDADOS
por Deus

Originalmente publicado em finlandês sob o título
«SAVESTA ASTIAKSI»
por Kirjaneliö · Helsinki
© Risto Santala, 1967

Edição em língua portuguesa:
Copyright © 1988, HORA LUTERANA - Lisboa · Portugal
em co-edição com NÚCLEO - Centro de Publicações Cristãs, Lda. Queluz · Portugal

Tradução: Eero Komulainen
Revisão do texto português: Artur Villares

Ilustrações: Maija Karma

Prefácio
Tesouro em vasos de barro
Nas mãos do oleiro
Quando o vaso está partido

Prefácio

«Moldados por Deus» guia-nos das encostas pedregosas de Nazaré, em Israel, até à casa simples do oleiro. Vamos ver como o barro é lavado, amassado e deposto até ficar «calmo» , como ele é trabaIhado sobre a mesa do oleiro e depois dessecado, pré-cozido e cozido, às vezes até quebrado a fim de poder ser trabalhado de novo para algum fim mais valioso. Vamos ouvir também que o barro tem «memória». Este caminho do barro também é o caminho do homem. Na casa do oleiro sentimos que estamos nas mãos do nosso Grande Oleiro. Ele é que fala.

Quando Deus se dirigiu a Moisés, falou-lhe «em uma chama de fogo». Foi-Ihe dado como regra: «Toda a coisa que pode suportar o fogo fareis passar pelo fogo, para que fique limpa, mas tudo que não pode suportar o fogo, o fareis passar pela água» (Núm. 31: 23). Assim é também na vida do homem.

Estes três estudos bíblicos, dados num encontro nórdico no verão de 1967, destinam-se em primeiro lugar ao homem angustiado. A angústia é um dos companheiros mais fiéis do homem de hoje. A angústia não indaga qual é a hora de visita mais adequada. EIa parece ter a chave para todos os lares. A angústia em si não enobrece o homem. Ela, pelo contrário, despe-o. É justamente no meio da nossa imperfeição que podemos aprender o que a casa do oleiro nos quer ensinar. Ela ensina que a angústia tem o seu propósito. Estamos juntos à procura deste propósito com este livro. Queira acompanhar-nos!

Helsínquia, 5 de Setembro de 1967

Risto Santala

TESOURO EM VASOS DE BARRO

«Temos, porém, este tesouro em vasos de barro,
para que a excelência do poder seja de Deus, e
não de nós.»

(II Cor. 4:7)

O papel do barro

Uma das imagens mais impressionantes de toda a Bíblia é a do vaso de barro. Também na tradição dos rabis se estima esta imagem. Por exemplo, quando se fala da Tora ou Lei de Deus, afirma-se aí: «A mensagem da Tora pode ser comparada com a água, pois está escrito: `b vós, todos que tendes sede, vinde às águas' (Is. 55:1). Assim como a água se estende dum extremo da terra até ao outro, assim a Tora o faz também. Como a água mata a sede, assim a Tora satisfaz a alma. Do mesmo modo que a água cai em gotas, formando primeiro riachos que por sua vez formam rios, assim também faz a Tora: o homem aprende koje uma verdade, amanhã talvez duas, até que se forma um rio transbordante. Assim como a água evita lugares altos e procura zonas baixas, também a Tora não aceita o que se julga importante, mas, pelo contrário, fica colada (hebr. middabbeket, cola-se) àquele que se considera pequeno. Não se põe a água em vasos de ouro ou de prata, mas no mais barato dos vasos. Do mesmo modo a Tora pode influenciar w v homem que concorda cm ser um vaso de barro.» (Shir ha-shirim rabbaa, aalef. )


A água procura zonas baixas

A palavra Tora, que significa «ensino», podia ser substituída, nesta descrição dos rabis, pela palavra «Evangelho» .

O Evangelho chega dum extremo ao outro da terra, satisfaz a alma e, em geral, é recebido «gota a gota».

Na língua hebraica a palavra pregar provém justamente de «gota». Lehattif, pregar, significa literalmente «formar gotas» . Só pouco a pouco, gota a gota, aprendemos pela pregação. No entanto, estas pequenas bençãos recebidas diariamente, acabam por formar um rio transbordante. Podemos até às vezes experimentar na nossa uida o que diz o salmo 23: «O meu cálice transborda.»

Contudo, o mais maravilhoso é que o Evangelho é dado no mais ínfimo dos vasos, no coração daqueles que são menores aos seus próprios olhos.

Se quisermos ser discípulos de Jesus, temos de aceitar o papel de vasos de barro. «Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus e não de nós.» É importante que aceitemos o papel do vaso de barro também como o papel do cristão.

Não é raro, nos nossos dias, encontrar cristãos que não passam de «janotas espirituais«. O apóstolo Paino reconheceu este perigo quando escreveu: «Não ambicioneis coisas altas, mas acomodai-vos às humildes» (Rom. 12:16). Parece que hoje em dia, mesmo os cristãos têm por objectivo principal da sua vida alcançar o nível de estudos mais elevado possível e um tipo de vida correspondente a essa posição.

Em Isaías diz-se do nosso Mestre: «Não tinha parecer nem formosura», «Loo toar loo ve-loo hadar» (Is. 53:2). Actualmente a palavra hebraica «toar», em Israel, significa grau universitário. Portanto, podíamos traduzir a profecia de Isaías, como os filhos de Israel em nossos dias a podem compreender: «Não tinha grau universitário nem formosura.» Não devíamos ser «janotas espirituais», nem sequer na teologia - «não com palavras de sabedoria humana, mas com as que o Espírito Santo ensina, comparando as coisas espirituais com as espirituais» (I Cor. 2:13). Um vaso de barro tem que se contentar com a condição do barro.

Quando pensamos na obra de Deus na nossa vida, perguntamos:

Por que é que Deus escolheu
justamente o barro?

Soaram-me muitas vezes no coração as palavras de um cântico espiritual:

Redimiste um pobre pecador
por um preço muito caro.
Ao me escolheres,
escolheste um desgraçado.
Mas a escolha foi tua.
Em tudo pequei, não tenho nada,
mas apesar disso sou Teu.

Quando Deus quis criar a mais formidável obra de arte do mundo, serviu-se do pó da terra como matéria-prima. Ao se afirmar que Deus criou o homem à sua própria imagem, isso quer dizer na prática, que Ele foi capaz de ver no pó da terra a Sua própria imagem, mesmo antes de lhe tocar. Quão extraordinário é Deus! Ele vê sinais de uida mesmo ali onde o homem é apenas capaz de ver um terreno morto e seco. Por isso Deus escolhe as coisas «que não são, para aniquilar as que sâo» (I Cor. 1: 28).

A glória de Deus manifesta-se quando Ele faz brotar uida no terreno que aos olhos humanos parece infértil.

Muitas vezes fiquei admirado ao pensar nas grandes mulheres do Antigo Testamento. Antes de serem escolhidas para mães dos grandes homens de Deus, elas tinham perdido toda a esperança humana quanto à maternidade.

Abraão tinha cem, anos e a sua mulher tinha noventa antes que fizesse «o Senhor a Sara como tinha falado» (Gén. 21:1).

Isaque esteve muito angustiado por sua mulher e orou insistentemente ao Senhor por ela, porquanto Rebeca era estéril. As suas orações foram respondidas vinte anos mais tarde.

Também a mulher de Jacob, Raquel, foi estéril por muito tempo e lutou «com lutas de Deus», até que Deus se lembrou de Raquel e a ouviu, concedendo-lhe José, o filho das orações.

A mãe de Moisés teve de renunciar ao seu filho e deixá-lo ao rio Nilo, mas Deus tirou-o das águas.

A esposa de Elcana não tinha filhos. «Ela, pois, com amargura de alma, orou ao Senhor e chorou abundantemente», derramando o seu coração aos pés do Senhor. «E o Senhor lembrou-se dela.» (I Sam. 1:19) Assim nasceu Samuel, um dos maiores homens de Deus do Velho Testamento.

Zacarias e a sua esposa já eram velhos antes que Deus falasse ao marido no Templo. « A tua oração foi ouvida, e Isabel, tua mulher, dará à luz um filho... e será cheio do Espírito Santo desde o ventre de sua mãe» (Luc. 1:13-15). Nasceu João Baptista, do qual Jesus disse: «Entre os que de mulher têm nascido, não apareceu alguém maior do que João Baptista» (Mat. 11:11).

Parece que as orações e súplicas feitas ao longo dos anos se acumularam abundantemente na vida dos filhos. Foi talvez por isso, que Deus quis conduzir os pais pelas aflições.


Ana derramou o seu coração diante do Senhor

Diante das promessas de Deus o homem tem sempre de pôr de parte os seus próprios planos. Só diante das impossibilidades começa a fé, e Deus parece agir só quando o homem está pronto para lhe dar toda a glória. O pai de João Baptista exclamou: «Como saberei isto? Pois eu já sou velho e a minha mulher avançada na idade!» (Luc. 1:18). Não somos capazes de sondar as profundezas de Deus - isso nem sequer é necessário - mas é triste se perdemos a fé em Deus como realizador de milagres.

Também o nascimento de Jesus teve de ser milagre pelo qual o terreno morto se tornou vivo.

Uma vez, o meu amigo, rabi Jechiel Goldin, todo entusiasmado, interpretou os primeiros versículos do capítulo 53 de Isaías: «Porque foi subindo como renovo perante ele, e como raíz duma terra seca.» Afirmou o rabi, que também este versículo falava do nascimento milagroso de Jesus, pois assim como não se lavra, nem se semeia, nem se rega no deserto, do mesmo modo o Messias teve de nascer através de um milagre. «Porque aquilo que não lhes foi anunciado verão.» (Is. 53:15).

Os que vivem num país onde o barro abunda, mal podem perceber o árduo trabalho feito pelo oleiro da Terra Santa para ter barro aproveitável. Quase se pode dizer como Ezequiel: «De vaidades se cansou» (24:12).

Desde 1954, tenho visitado regularmente um oleiro que vive próximo de Nazaré. Quase quereria dizer, como o missionário Paul Ferrée, que fundou várias fábricas de cerâmica na Tunísia: «O meu interesse não é tanto os vasos mas sim aqueles que os fazem. »

Cada oleiro tem os seus segredos, transmitidos muitas vezes de pais para os filhos durante séculos. Um dos segredos bem guardados é o do sítio onde o oleiro vai buscar o barro.

Um dia, o oleiro de Nazaré, prometeu levar-me ao tal sítio. Eu esperava que fôssemos a algum vale, mas, peto contrário, fomos a uma encosta pedregosa longe da cidade. O rosto do homem ficou iluminado quando tomou a terra na mão, na beira do caminho. Ele até a acarinhava ao contar que frequentemente levava daí, em segredo, uma carga dessa terra.

Ninguém sabia qual era o segredo do barro que ele usava. Com exactidão de químico, analisou a composição e as particularidades do barro. Expôs, também, os defeitos do barro existente nas redondezas. Contudo, èu estava desapontado: «Será que dessa terra pedregosa e calcária é possível extrair algum barro?»

No pátio do oleiro recebi a resposta.

É preciso lavar o barro

antes de o colocar sobre a mesa do oleiro. Depois de voltarmos para Nazaré, o aprendiz do oleiro levoume ao lado da casa onde havia duas covas mais ou menos de um metro quadrado cada uma. Primeiro encheram-se as covas com água. Em seguida o aprendiz deitou lá a terra. Esta maceração levou vários dias, a que se seguiu a purificação do barro. Nos tanques amplos, feitos de bidões de gasolina, o barro macerado, foi esfregado e lavado aos poucos. De vez em quando os dedos do oleiro encontravam na massa grãos não dissolvidos que logo eram tirados fora. Quando toda a massa foi purificada, foi colocada outra vez na cova para «repousar». O sol fez evaporar a humidade, tendo ficado uma massa densa na qual apareceram fendas, demonstrando assim que a massa já tinha particularidades do barro. Na cova o barro tornou-se mais resistente. Só depois começou o manejo próprio do barro.


O barro lavado a repousar na cova

O barro deve ser amassado

Ao lado duma parede da olaria encontrava-se um monte do torrões de barro à espera. Um a um, todos foram amassados pelas mãos do oleiro. Sempre me admirei dos seus dedos fortes. Primeiro bateu o torrão com palmas, para preparar uma folha, que depois foi enrolada e batida outra vez até ficar macia. De vez em quando, os sensíveis dedos do oleiro encontravam um pedaço de pedra. Se tal pedra ficar na massa, pode estragar os vasos na altura da modelagem.

A mesma coisa se passa na uida cristã. Quando estamos nas mãos do nosso oleiro, quando somos trabalhados por Ele, encontram-se as maiores falhas da nossa uida. Do nosso íntimo surgem egoísmo e áreas não-santificadas, que de outro modo ficariam ocultas. Quanto ao nosso coração, em geral pode dizer-se com o salmista: «Engrossa-se-lhes o coração como gordura» (Sal. 119:70). Os nossos pecados e egoísmo não nos incomodam. Quando Deus nos molda, concretiza-se o que está escrito em II Reis 22:19: «Porquanto o teu coração se enterneceu e te humilhaste perante o Senhor... e choraste por mim, também te ouvi, diz o Senhor.»


Aprendiz a amassar o barro

Jeremias, homem de Deus, teve de ser lançado numa cisterna enlameada, antes de Deus ter mandado um etíope, Ebed-melech, para o tirar da lama (Jer. 38:6-13). E Pasur, o «presidente na casa do Senhor» , teve de ferir o profeta e metê-lo no cepo antes que este enviado de Deus se apercebesse da vontade de Deus: «Iludiste-me, ó Senhor, e iludido fiquei; mais forte foste do que eu e prevaleceste.» (Jer. 20:7).

Deus trabalha justamente os que Ele quer usar. O apóstolo Paulo ía ser um «vaso escolhido, para levar o nome do Senhor diante dos gentios, e dos reis e dos filhos de Israel.» Por isso Ananias recebeu com antecedência esta predição: «E eu lhe mostrarei quanto deve padecer peto meu nome.» (Actos 9:15, 16).

Um pensador afirmou que a visa deu muito ao homem quando deu sofrimento. Sendo trabalhado por Deus, o homem recebe bênçãos incalculáveis da tesouraria do Senhor. Tais riquezas não podem ser encontradas em nenhum supermercado deste mundo. O barro deve ser amassado para que possa ser formado pelo oleiro. Senão quebra ao seu simples toque.


Jeremias é tirado da lama

A palavra de Jeremias: «Iludiste-me, ó Senhor, e iludido fiquei» (Jer. 20:7), é, em hebraico: «Pititani Adonai vaepat; chazaktani vatuchal», isto é: «Com a tua fala me convenceste e eu fiquei convencido; tu usaste a tua força e atingiste o teu objectivo.» No hebraico moderno a palavra `petit' usa-se em relação à pessoa que pode ser convencida por alguém. Mesmo sendo cristãos, temos muitas vezes ouvidos duros e Deus tem que usar linguagem dura para que aceitemos a sua repreensão.

Muitas vezes somos cristãos endurecidos. I Samuel 25:37 fala de Nabal e diz: «E se amorteceu nele o seu coração e ficou ele como pedra. » Quando é que Deus precisa de usar o seu poder antes de ter possibilidade de realizar os Seus planos quanto a nós?

Repetidas vezes os lábios do ímpio louvam a Deus mais facilmente do que o cristão endurecido que confia em si mesmo. A consciência sensível perante Deus faz parte da cristandade viva.

Certa vez tive o privilégio de confortar um comerciante cristão com as palavras dirigidas à igreja de Smirna. «Eu sei as tuas obras, e tribulação e pobreza (mas tu és rico)» (Apoc. 2:9). Todo o cristão tem alguns versículos bíblicos, muito significativos em certas ocasiões decisivas da vida. Por três vezes ouvi o mesmo versículo na altura em que me preparava para sair para Israel como missionário. Duas vezes na mesa do Senhor e uma vez durante o momento devocional na rádio. Esta palavra que me comoveu o coração, encontra-se no salmo 84:5,6: «Bem-aventurado o homem cuja força está em ti, em cujo coração estão os caminhos aplanados. O qual passando pelo vale de Baca (vale de choro/vale de lágrimas, segundo o texto original), faz dele uma fonte; a chuva também enche os tanques.» Evidentemente que os «caminhos aplanados» do cristão são muitas vezes o caminhar peto «vale de lágrimas». A Bíblia em francês utiliza a expressão «ils transforment». Deus transforma as aflições da nossa uida em bênçãos. É exactamente por isso que o Grande Oleiro nos trabalha e nos tribula.

Não é possível conhecer as características do barro sem o provar, experimentar com os dedos. O barro deve ser resistente e elástico; tem de viver e «chorar». De outro modo não há uida nele.

Mas o barro amassado não vai imediatamente para a mesa do oleiro.

O barro amassado é posto de lado

onde repousa e se torna mais maduro. Ao Canto da olaria ele está à espera da sua vez.

Quem visita uma olaria, ,normalmente não presta atenção nenhuma a estes torrões de barro cobertos com pano. Todavia, o caminho do homem é o caminho do barro. Uma das lições essenciais da nossa vida é aprender a estar posto de lado. Quem segue o caminho do barro a partir das encostas pedregosas de Nazaré até à mesa do oleiro repara que repetidamente o barro fica à espera. Mas estar de lado, estar deposto, não significa ser abandonado. No mundo do barro existem certas leis que não podem ser ultrapassadas. O mesmo se passa também no Reino de Deus.

Abraão tinha 75 anos quando Deus lhe falou em Harã. Passou a maior parte da sua vida numa caminhada fatigante no deserto.

José andou pelo poço, pela escravidão e pela prisão, até atingir a liberdade.

Moisés experimentou a condição de refugiado por ter morto um egípcio, tendo passado muito tempo a pastorear ovelhas no deserto de Midiã.

João Baptista preparou-se no deserto para o seu trabalho.

O apóstolo Paulo ficou três anos no deserto após a sua conversão e só passados 14 anos é que foi a Jerusalém para relatar a sua primeira viagem missionária; só então recebeu a tarefa de trabalhar como apóstolo dos gentios.

Através das vidas destes homens de Deus podemos ver que durante muito tempo ficaram como se tivessem sido depostos. Mesmo na guerra, a maior parte do tempo se passa nas posições e nas trincheiras. A maior pane da guerra é esperar; o combate em si, levy pouco tempo. No entanto, são exactamente estes períodos de espera e a maneira de ocupar os momentos da uida quotidiana, que mais nos formam como cristãos.


A lição de estar posto de lado

Não há vias rápidas para experimentar as bênçãos mais profundas do Reino de Deus. Mesmo em tempos remotos, os santos combateram para se aperceberem dos caminhos misteriosos de Deus. Por que é que o homem, nos nossos dias, precisaria de atalhos? No mundo do barro existem leis apropriadas.

O barro não suporta violência

É preciso mover, induzir e «persuadir» o barro. Ele não pode ser fundido. Hoje em dia, grandes fábricas, usando certos produtos, fazem objectos de barro com moldes, mas qualquer oleiro vulgar, da China à América, sabe que o barro não pode ser modelado à força. Por isso, é necessário «persuadir» o barro. O barro exige um certo tempo antes de ficar na forma desejada pelo oleiro. Assim também Deus nos persuade a aceitar o Evangelho.

Jesus disse: « Quantas vezes quis eu juntar os teus filhos, como a galinha junta os seus pintos debaixo das asas, e tu não quiseste.» (Mat. 23:37). Em Os. 11:7 lemos: « O meu povo é inclinado a desviar-se de mim: bem que clamam ao Altíssimo, nenhum deles o exalta.» Is. 65:2 afirma: «Estendi a minhas mãos todo o dia a um povo rebelde, que caminha por caminho que não é bom.»

O Santo Deus bem sabe que o homem se revolta contra a Sua vontade, mais que o próprio barro contra a vontade do oleiro. Por isso, Deus quis ganhar a nossa confiança e entregou o Seu próprio Filho como garantia do Seu amor para connosco. Assim devíamos entender as palavras do apóstolo Paulo que converteram o grande pregador norueguês Albert Lunden: «aquele que nem mesmo a seu próprio filho poupou, antes o entregou por todos nós, como nos não dará também com Ele todas as coisas?» (Rom. 8:32). Não podemos exigir maior persuação da parte do Grande Oleiro.

De que maneira deve estar o barro nas mãos do oleiro? Deve ser elástico e «calmo». Um oleiro disse-me: «O barro purificado e trabalhado é belo. Não tem componentes estranhos de qualquer tipo; ele é como leite ou seda; já não revolta nos dedos.» Quanto ao homem, isso significa evidentemente o j que um canceroso recebeu da Bíblia para a sua aflição. Ele leu o salmo 131:2: «De certo fiz calar e ¡ sossegar a minha alma: qual criança desmamada, para com sua mãe, tal é a minha alma para comigo.» Assim ele recebeu a paz interior. Apesar de tudo ele estava na «liteira» da graça de Deus.

O barro tem memória

Uma das características humanas do barro é que ele é capaz de memorizar o trabalho que já foi feito nele. Por isso o barro é amassado e trabalhado várias vezes para que se torne mais resistente - e por isso também é muitas vezes deposto entre as fases do trabalho. Os cientistas falam da chamada «lei de Débora». Em Juízes 5:5 diz-se, no texto original, que «os montes correm diante do Senhor». Ao se derreterem, os montes correram e dobraram-se até atingir a forma actual. Mas continuam a estar em movimento, lento e invisível. O mesmo se passa também com o barro e a matéria plástica. Também eles têm uma espécie de memória que se chama o fenómeno geológico. Se o oleiro tem duas bolas de barro, iguais, quanto à forma e à dureza, das quais uma já foi uma vez amassada, ele só precisa de as tocar para saber qual delas já passou pelas suas mãos.

Com o homem passa-se o mesmo. Não é em vão nenhum trabalho de Deus em nós. Se já estivemos uma vez na escola de Deus, os ensinos, até enganos anteriores, contribuem para o nosso bem mais tarde. Sentimos, nós próprios, que somos «torrões duros e inflexíveis» nas mãos de Deus. Será que Ele pode usar uma pessoa tal como eu sou? Mas Deus não se esquece da sua obra. «Todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus» (Rom. 8:28), incluindo as aflições e provas da nossa vida. Que consolação para nós! No cristão há continuamente «movimento» que u atrai a liisi de v levar à presença de Deus. Sem esta saudade nem sequer chegaríamos à Sua presença. E Deus lembra-se em que fase estamos em cada altura.

Em Nazaré aprendi que

cada oleiro tem os seus próprios modelos,

passados de geração em geração. Em geral, este conjunto de modelos é bem rico. Os vasos são feitos de tal maneira, que são apropriados para um determinado uso. Afinal de contas, o vaso é apenas um servo. Serve para guardar água, azeite, vinho, tinta, condimentos e até pedras preciosas e tesouros. Muitas vezes os judeus, nos anos de perseguição e dispersão, esconderam as suas fortunas e os livros sagrados em vasos de barro, que logo foram enterrados. Procederam assim já 200 anos antes de Cristo, como testificam os rolos do Mar Morto, que foram entretanto descobertos, escondidos em vasos de barro, nas covas de Qumram. As tampas foram fechadas tão bem que o ar não podia entrar e estragar o conteúdo.


O vaso é só um servo

Também a pintura e a vidragem do vaso dependem do uso a que se destinam. Contudo, o mais importante é o tesouro que está no vaso. Também no Reino de Deus existem certos modelos básicos e certos tesouros fundamentais que cada cristão devia conhecer e aceitar como guias para a uida. Se estas normas não servem como princípios da nossa uida, será que tomamos realmente a sério a nossa vocação como cristãos? Quero enumerar alguns princípios. Peço que os leffa atentamente.

  1. O objectivo de todo o trabalho de Deus está expresso já na narração da Criação: Ele criou-nos à sua imagem (hebr. Zelem Elohim, lat, imago Dei), O apóstolo Paulo enfatiza em Gá1. 1:16 que Deus revelou nele o Seu Filho. Jesus é, segundo Heb. 1:3, «o resplendor da sua glória e a expressa imagem da sua pessoa». Todo o trabalho espiritual visa a que «Cristo seja formado em nós» (Gal. 4:19).
  2. O apóstolo Paulo destada: "Antes crescei na graça e conhecimento de nosso Senhor e Salvador, Jesus Cristo» (II Ped. 4:19).
  3. Col. 3:3 relembra: «Já estais mortos e a vossa uida está escondida com Cristo em Deus.»
  4. Os judeus convertidos ao cristianismo consideram muitas vezes Gál. 2:19,20, como o texto mais essencial do Novo Testamento: «Porque eu, pela lei, estou morto para a lei, para viver para Deus. Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a uida que agora vivo na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus.» Gá1. 6.14 fala do mesmo assunto revelando que, pela cruz de Jesus Cristo, «o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo».
  5. Ef. 2:6 diz que Ele «nos fez sentar nos lugares celestiais, em Cristo Jesus».
  6. O apóstolo Paulo acentua em I Cor. 2:5: «Para que a vossa fé não se apoiasse na sabedoria dos homens, mas no poder de Deus.»
  7. Ef. 3:19 exorta-nos a conhecer «o amor de Cristo, que excede todo o entendimento, para que sejais cheios de toda a plenitude de Deus».
  8. A mesma carta, em 4:12, relembra que Deus quer «o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério» .
  9. Mero serviço não chega. Em Ef. 6:6, 7 é-nos lembrado: «Fazendo de coração a vontade de Deus; servindo de boa vontade como ao Senhor, e não como aos homens.»
  10. O aivo pata nós atingirmos está escrito em Ef. 2:22: «No qual (Senhor), também vós, juntamente, sois edificados pata morada de Deus em Espírito.»

Ester dez parágrafos são um resumo da fé cristã. Seria bom que encontrássemos na nossa Bíblia algumas regras básicas que nos ajudassem a lembrar, em cada momento, o que é essencial na nossa uida espiritual. Quanto a mim, sempre me tenho perguntado: Será que este piano tem espaço pata Jesus? Tenho visto repetidas vezes que só se encontra satisfação permanente ali, onde há espaço pata Jesus. Mas Ele não abençoa todos os norros impulsos. Ele requer espaço, frescura e consagração, pois então Ele realmente está presente nas tempestades da nossa uida.

Quando o apóstolo Paulo fala do tesouro em vasos de barro e do enorme poder contido nele, o que está em questão é a influência real de Jesus na Igreja. Será que nós, cristãos de hoje, aceitamos os planos de Deus pata a nossa uida? Ou será que estamos revoltados nas mãos de Deus? Talvez nos comecemos a tornar «cristãos endurecidos» e, por conseguinte o verdadeiro objectivo da fé cristã já não nos faça sentido.

A vontade de Deus pura connosco só se realiza se não recusarmos esse papel de varo de barro. Estar como um torrão sem forma, ao Canto da olaria de Deus, não quer dizer que Ele nos Lenha abandonado. Deus está pronto a abençoar-nos, Ele está pronto a tomar-nos na Sua mão. Nós é que precisamos de tempo a fim de ficarmos calmos no nosso íntimo, a fim de aceitarmos interiormente a vontade de Deus. Deus quer dizer-nos a mesma coisa que a um jovem durante o famoso despertamento em Wales, em princípios deste século. O jovem estava revoltado porque já tinha orado muito tempo pelo despertamento. Finalmente ele compreendeu que Deus estava pronto, mas os Seus filhos não estavam.

Oremos!

Santo Deus. Quero agradecer-te, porque ultimamente me tens ensinado a ficar de lado. Senhor, estou como um torrão de barro, metido num canto. Perdoa-me a minha impaciência e rebeldia contra a tua maneira de me conduzir. Senhor, ajuda-me para que a rebeldia existente no meu íntimo acalme e eu esteja nas tuas mãos como uma criança desmamada ao colo da mãe. Senhor, livra-me da escravidão dos homens. Dou-te graças, porque estar deposto não significa ser abandonado. Senhor, purifica-me o coração de tudo o que é inútil e sem valor aos teus olhos. Torna-me um verdadeiro discípulo. Senhor, agora o meu coração está aberto, há nele espaço para ti. Não me ultrapasses. Vem viver em mim. Jesus Cristo, meu Senhor, não me ultrapasses. Ámen.

NAS MÃOS DO OLEIRO

«Nós o barro, e tu o nosso oleiro.»

(Is. 64:8)

Certa vez um jovem, natural da Tunísia, disse-me: «Ao ver um oleiro pela primeira vez decidi ser oleiro também.» Agora é director duma grande fábrica de cerâmica que emprega 25 homens. O missionário Paul Ferrée contou que ele tinha instruido as crianças árabes na Tunísia para serem oleiros. Reparou, então que só um em cada sete rapazes tinha os requisitos necessários para essa profissão. O oleiro oriental, em geral, é homem sábio.

O profeta Jeremias ouviu as palavras: «Levanta-te e desce à casa do oleiro, e lá te farei ouvir as minhas palavras. E desci à casa do oleiro, e eis que ele estava fazendo a sua obra sobre as rodas. Como o vaso, que ele fazia do barro, se quebrou na mão do oleiro, tornou a fazer dele outro vaso, conforme o que pareceu bem aos seus olhos fazer. Então veio a mim a palavra do Senhor, dizendo: `Não poderei eu fazer de vós como fez este oleiro, ó casa de Israel? diz o Senhor: eis que como o barro na mão do oleiro, assim sois vós na minha mão, ó casa de Israel'.» (Jer. 18:2-6).

Desce à casa do oleiro

e lá ouvirás as minhas palavras. O homem moderno dificilmente compreende que Deus concede as suas bênçãos ao mais ínfimo dos vasos. O apóstolo Paulo, com efeito, experimentou que o evangelho «semeiase em ignomínia, ressuscitará em glória; semeia-se em franqueza; ressuscitará com vigor» (I Cor. 15:43). Por isso, «glorie-se o irmão abatido na sua exaltação e o rico em seu abatimento» (Tg. 1:9). Muitas vezes andamos a acumular riquezas para os últimos dias (Tg. 5:3), mas não queremos juntar tesouros que valem também na vida eterna. Talvez i seja exactamente por isso que Deus nos persuade a passar pelas tribulações. Nem sequer o pastor vai para o Céu pela sacristia. A porta estreita e o caminho apertado são também para ele. Uma das palavras predilectas do apóstolo Paulo está escrita em II Cor. 4:13: «Cri, por isso falei». Este versículo encontra-se completo no Salmo 116:10 «Cri, por isso falei: estive muito aflito.»

Temos de ir a casa do oleiro, em geral, a fim de aprendermos a lição do rei Ezequias. Foi-lhe dito: «Põe em ordem a tua casa!» (Is. 38:1). Na sua grande angústia ele clamou: «Senhor, com estas coisas se vive, em todas elas está a vida do meu espírito.» «Eis que para minha paz eu estive em grande amargura; tu porém tão amorosamente abraçaste a minha alma, que não caiu na cova da corrupção» (38:16,17). Estar atribulado é uma das coisas fundamentais para a nossa fé: «com estas coisas se vive». Quando na nossa vida espiritual ficamos abatidos, como se estivéssemos numa cova profunda, é bom lembrar que de lá há só uma vista: para cima. As palavras de Paulo têm muito valor porque ele sabia o que falava, pois estava frequentemente muito aflito. Em II Tim. 3, há uma longa descrição àcerca dos homens dos últimos tempos. No fim da descrição diz-se deles que são «fracos na fé». Por isso, «amados, não estranheis a ardente prova que vem sobre vós para vos tentar, como se coisa estranha vos acontecesse» (1 Ped. 4:12). Só a fé provada cresce no conhecimento da Graça. Nas sinagogas dos judeus o lugar do intercessor está normalmente numa concavidade no chão a fim de que possa ler as palavras do Salmo 130: «Das profundezas a ti clamo, ó Senhor. Senhor, escuta a minha voz.» A cristandade de hoje carece muitas vezes de profundidade porque não experimentamos as profundezas de Deus. É para o nosso bem que Deus nos diz: «Desce à casa do oleiro».


Casa do oleiro em Nazaré

A vida espiritual tem leis próprias. No evangelho de S. João (2:23,24) está escrito: «Muitos, vendo os sinais que fazia, creram no seu nome. Mas o mesmo Jesus não confiava neles, porque a todos conhecia.» Será que mesmo hoje em dia Jesus não pode confiar em nós, porque «amamos mais a glória dos homens do que a glória de Deus» (Jo. 12:13)? Como é que Jesus pode confiar em nós se não o tomarmos a sério? O apóstolo Paulo chegou a afirmar: «Porque a ninguém tenho de igual sentimento, que sinceramente cuide do vosso estado. Porque todos buscam o que é seu, e não o que é de Cristo Jesus» (Filip. 2:20,21).

A escola da tribulação tem como finalidade despir-nos dos nossos próprios desejos, de todas as paixões da nossa alma. I Cor. 15:46 descreve, com exactidão, a obra de Deus nos nossos corações: «Mas não é primeiro o espiritual, senão o animal; depois o espiritual.» Judas, o irmão de Jesus, diz sobre os escarnecedores dos últimos tempos, que eles são «sensuais, que não têm o Espírito» (vers. 19). Cristianismo sem acção do Espírito Santo, facilmente se torna em movimento que despreza os valores fundamentais da nossa fé. Mas, «a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais penetrante do que espada alguma de dois gumes, e penetra até à divisão da alma e do espírito, e das juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e intenções do coração» (Hebr. 4:12). Reavivamento é capaz de criar filhos de Deus sensuais - mas quando este filho se enraíza na Palavra de Deus, essa palavra pouco a pouco purifica-o de tudo o que é sensual. Na maioria dos casos isso acontece no meio de aflições e tribulações. Por isso Deus nos conduz à casa do oleiro.

O oleiro trabalha com o torno

O torno do oleiro é formado por dois discos fixados a um eixo vertical. Os pés funcionam como motor e alternadamente fazem girar ou travar a roda. Depois de ter amassado novamente as bolas de barro anteriormente feitas, o oleiro, antes da modelagem, mistura um pouco a areia muito fina com o barro e humedece levemente a bola. Depois forma em cima da mesa uma pequena base de barro. Em breve os dedos do oleiro, longos e musculosos, vão modelando barro em bruto, um vaso após outro, conforme o que lhe parece melhor. A vantagem da mesa giratória é evidente: o oleiro pode aproximarse do vaso em modelagem de todos os lados ao mesmo tempo.


Ele estava a fazer a sua obra sobre as rodas

Quando Deus trabalha os seus filhos, às vezes é como se estivesse a cercá-los. O apóstolo Paulo experimentou isso: «Porque, mesmo quando chegámos à Macedónia, a nossa carne não teve repouso algum; antes em tudo fomos atribulados: por fora combates, temores por dentro» (II Cor. 7:5). Ele viu, como a nossa casa terrestre se desfaz, como gememos desejando ser revestidos da nossa habitação, e como não queremos ser despidos. Ele reparou que estamos sempre entregues à morte e que o nosso homem exterior se corrompe. Ele foi sobremaneira agravado mais do que podia suportar. Várias vezes esteve «em fraqueza e em temor, e em grande tremor». Assim Deus tem de nos moldar até que Cristo seja formado em nós. O apóstolo Paulo foi moldado por fora e por dentro. Em Crón. 13:14 fala-se duma situação semelhante: «... e eis que tinham de pelejar por diante e por detrás: então clamaram ao Senhor.» Um pouco depois conta-se: «... e com toda a sua vontade o buscaram, e o acharam: e o Senhor lhes deu repouso em redor» (15:15). As mãos do oleiro estão habituadas a modelar o vaso por fora e por dentro ao mesmo tempo.

O oleiro faz maiores vasos

em várias fases.

Uma das particularidades básicas do barro é que ele não suporta o seu próprio peso. Assim é também com o homem. São raros aqueles que podem receber muitas bênçãos de Deus sem ficarem orgulhosos. Facilmente ficamos inchados. E se não temos feitos notáveis para deles nus orgulharmos, orgulhamo-nos da nossa humildade, da nossa espiritualidade, etc. Jesus teve de dizer dos fariseus do seu tempo: «E fazem todas as obras a fim de serem vistos pelos homens...» (Mat. 23:5). Um dos ídolos de hoje é o de ser aceite pelos demais. Quem servir a este ídolo, não suporta a benção de Deus. É por isso que maiores bençãos não nos são confiadas. Se o oleiro tentar fazer um vaso alto de uma vez, o vaso vai desabar. Do mesmo modo, o homem asfixia-se na sua própria importância. Em Provérbios lemos: «Por três coisas se alvoroça a terra, e a quarta não a pode suportar: Pelo servo, quando reina... e pela serva, quando fica herdeira da sua senhora» (30:21-23).

Ao fazer um vaso alto o oleiro faz primeiro várias partes inferiores e coloca-as nalgum lugar temperado e sombrio. Ficam lá até serem capazes de suportar o peso da parte média. Talvez já no dia seguinte o oleiro continue o trabalho. Tendo feito a parte média, segue outra vez a fase de espera. Só depois é feita a parte superior e mais tarde a pega.


O barro não suporta o seu próprio peso

É fácil de reconhecer pela asa os vasos feitos pelo meu amigo, o oleiro de Nazaré. Quando ele os coloca no seu lugar, deixa na asa um sinal, claro e autêntico: a impressão do polegar. Ao encontrar os filhos de Deus, tenho por hábito tentar descobrir neles a «impressão do polegar de Deus». Essa impressão revela que o homem em questão tem estado nas mãos do nosso Grande Oleiro. Lembro-me de um pastor do, qual um homem testemunhou que sempre oferecera uma certa parte do salário para o trabalho missionário. Outro pastor foi bastante criticado por ser muito obstinado. Então uma senhora idosa me contou: «Terminada a construção da nova igreja andou de casa em casa a convidar as pessoas ao culto.» Mais tarde tive ocasião de ver que esse pastor tinha realmente a impressão do polegar de Deus.

Antes de serem cozidos no forno, todos os vasos do oleiro passam pela fase de secagem. Devem ser colocados num lugar liso para que não se deformem. Não podem ficar expostos ao sol a fim de que a secagem não seja demasiadamente rápida e num só lado. Também os cristãos atravessam tempos de aridez durante os quais tudo lhes parece aborrecido e monótono. É durante a secagem que o barro se torna mais resistente. No deserto de Negev, em Israel, encontra-se uma planta que consegue água a 30 metros de profundidade. No tempo da seca, as raízes crescem para dentro da terra. No solo húmido elas estendem-se caprichosamente ao longo da superfície. Só a árvore, bem enraizada em fendas de rochas, resiste às tempestades da vida. Se tivermos só dias de sol na nossa vida espiritual, ficamos deformados. As épocas tranquilas evitam que a vida espiritual fique deformada.


Vê-se neles a impressão do polegar de Deus

O vaso de barro pode ser usado apenas depois de cozido.

O forno de oleiro

varia muito de terra para terra. O forno moderno, usado nas fábricas, tem janelas para ver o que se passa dentro dele. O termómetro indica a temperatura. O pote vulgar, vermelho, é cozido a uma temperatura de 600 graus, a loiça de uso caseiro a 850 graus, a loiça pintada a uns 970 graus e a porcelana pelo menos a 1350 graus. A porcelana, aliás, contém substâncias que o barro vulgar não tem. Ainda que os fornos variem muito, os segredos de cozimento são semelhantes em todo o lado.

Antes de ser cozido o vaso é pré-cozido

No decorrer da cozedura é que se nota claramentes a paciência do oleiro. Em geral, a fase incial fica ao cuidado do aprendiz. Tendo colocados os vasos nas prateleiras, ou da maneira mais simples, uns por cima dos outros, o aprendiz acende o forno. Começa a fase, cujo nome em inglês, «smoking the pot», «fazer fumegar o pote», é muito significativo. A temperatura baixa e o barro perde a humidade que ainda resta. Se olharmos ô forno, parece que os vasos estão a fumegar. É como se deles saísse vapor.


Aprendiz a pré-cozer os vasos

Se a temperatura sobe de repente, algum vaso pode rebentar e estragar toda a fornada. Também Deus parece conduzir os seus filhos pouco a pouco à forja da vida. Então pode acontecer que não resistamos às tentações da fase inicial da nossa vida espiritual, muito menos às novas circunstâncias em que nos encontramos. As perspectivas eram boas quando começou o trabalho com algum grupo novo, ou talvez algum trabalho y missionário começasse com muito sucesso: o número de crentes aumentou e o amor de Deus aqueceu os corações. Mas, por qualquer razão alguém ficou ofendido, talvez por os outros não lhe prestarem atenção. Não há outro tão faminto como a pessoa que quer ter a atenção dos outros. O nosso velho homem está sempre pronto a dirigir e a exibir-se. Assim o trabalho pode parecer cada vez mais animado e extenso. Então, tenta-se fazer algo sem ter pressupostos interiores nem procuração dada por Deus. A partir do começo modesto que nos foi dado, inchámo-nos e passa-se o mesmo que cum os vasos durante u pré-cozimento. A borbulha de ar, escondida no barro, rebenta, e em consequência dá-se uma explosão. Estilhaços espalham-se por todo o lado. Muitos ficam feridos e assim pode perder-se toda a fornada. O nosso orgulho impede-nos de receber as bênçãos e o coração orgulhoso ofende e fica ofendido.

O pastor precisa de muita dedicação durante a fase do «pré-cozimento» na igreja, da mesma dedicação da qual o apóstolo Paulo escreve: «Antes fomos brandos entre vós, como a ama que cria os seus filhos» (I Tess. 2:7). Mesmo assim muitas vezes acontece que algum vaso explode e estraga todo 0 trabalho que tinha começado tão bem.

Durante o pré-cozimento o vaso de barro

encolhe-se e perde peso

A medida que a cozedura avança, o vaso continua a encolher-se até certo ponto. Ao mesmo tempo 0 fogo provoca no interior da estrutura argilosa do objecto certas transformações. Finalmente a temperatura alta dos elementos contidos no barro fundem-se. À temperatura de 1350-1400 graus ocorre uma certa reacção química e assim nasce porcelana que é a mais dura matéria feita pelo homem exceptuando os diamantes artificiais. As dimensões do objecto podem diminuir uns 16% , normalmente uns 11 % .


O vaso diminui durante o cozimento até 16%

Durante o pré-cozimento elimina-se toda a humidade remanescente. Por fim o oleiro experimenta qual é a temperatura do forno utilizando aço frio. Se o aço ficar coberto de vapor, é preciso continuar o pré-cozimento. Quando experimentamos a frieza dos demais, é bom lembrar que mesmo isso pode ser para provar a nossa fé. No começo da vida espiritual sentimos a nossa aridez e sede espiritual. Nos dias de seca podemos ler, por exemplo o Salmo 43: «Como o cervo brama pelas correntes das águas, assim suspira a minha alma por ti, ó Deus. A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo. - Porque estás abatida, ó minha alma, e porque te perturbas dentro de mim? Espera em Deus, pois ainda o louvarei. Ele é a salvação da minha face, e o meu Deus» (Salmo 42:1, 2, 11). Só no caminho das aflições aprendemos a conhecer melhor o Deus vivo.

Durante a primeira cozedura a estrutura do objecto torna-se mais homogénea ao mesmo tempo que diminui em tamanho. Mesmo o cristão cresce só quando diminui. «É necessário que Ele cresça e eu diminua» (Jo 3:30). E podemos crescer só na graça. Pedro exorta: «Antes crescei na graça e conhecimento de nosso Senhor e Salvador, Jesus Cristo» (II Ped. 3:18). Crescer na graça significa reconhecer cada vez mais como somos pecadores. Este sentimento aprofunda-se quando Jesus se aproxima de nós.

A Bíblia diz acerca de Moisés: «E era o varão Moisés mui manso, mais manso do que todos os homens que havia sobre a terra» (Nm. 12:13). Ele era grande porque era pequeno aos seus próprios olhos. Este trecho é em alemão: «Und Moses war ein sehr geplagter Man», `E Moisés foi um homem muito afligido'. Na língua hebraica as palavras «anaav» , `humilde' e «meune», `afligido', provêm da mesma raíz. Deus conduz os seus filhos pelas tribulações e aflições a fim de que se tornem mais pequenos.

Mesmo o barro experimenta a «glorificação»

Depois da pré-cozedura a temperatura do forno é lentamente aumentada. A temperatura de 500 graus os objectos tornam-se encarnados. Depois começam a abrasar-se como o ferro candente. Só então o oleiro começa verdadeiramente a aumentar a temperatura. Finalmente o vaso está todo em brasa. Um amigo meu contou-me: «Esta cor não é a de oiro nem branca ou azul, nem alguma outra cor conhecida. O apóstolo João viu esta cor na ilha de Patmos. Ela é de plena luz. » Será que o rosto de Moisés brilhava com esta luz quando conversava com Deus no monte Sinai? Em Apocalipse lemos sobre 'o Salvador ressuscitado que «a sua cabeça e cabelos eram brancos como lã branca, como a neve, e os seus olhos como chama de fogo; E os seus pés, semelhantes a latão reluzente, como se tivessem sido refinados numa fornalha» (Apoc. 1:14, 15).

Se o vaso tem este luzir ficou bom com certeza. Uma vez a cozedura leva 8 horas, outra vez talvez 18 horas antes que apareça este luzir. O vaso pode luzir talvez só durante três minutos mas o resultado é o mesmo, ainda que o luzir continuasse por três horas.

O oleiro

observa a cozedura durante todo o tempo

Através duma pequena abertura o oleiro segue o que se passa no forno. É difícil encontrar termómetros que indiquem temperaturas que ultrapassem os 500 graus. O missionário Paul Ferrée que trabalhou na Tunísia, inventou diversas velas aproveitando vários minerais e barro que encontrou na natureza. As velas desabaram a uma certa temperatura. Atravês de um pequeno buraco do forno ele reparou qual das velas caiu de cada vez. Assim podia saber a temperatura do forno. Esta imagem é muito rica: Deus sabe quanto é que podemos suportar o calor da vida e da sua quietude e cuida de nós da maneira mais conveniente. «Toda a coisa que pode suportar o fogo fareis passar pelo fogo para que fique limpa - mas tudo o que não pode suportar o fogo, o fareis passar pela água» (Núm. 31:23). O oleiro «vê através dos seus vasos». E quando por fim toma o vaso na mão, esse vaso «canta» e «retine» nas mãos do seu mestre.


Quando o vaso luzir, então está bom

É exactamente a forjada vida que dá mais intensidade à luz na vida dos filhos de Deus. Só o cristão provado sabe cantar; a vida de muitos grandes homens de Deus testifica isto. Um tal vaso «retine» nas mãos do mestre. Em Esdras 5:5 está escrito: «Porém os olhos de Deus estavam sobre os anciãos dos judeus.» No meio de todas as aflições podemos experimentar a mesma coisa. Os olhos do pai observam a vida dos seus filhos.

Depois de ter passado pelo fogo o vaso está pronto para ser usado. Mas mesmo estando pronto ele tem de ser diariamente lavado. A Bíblia fala-nos disto repetidamente.

Nas terras da Bíblia a água da chuva, em geral, é conduzida para os grandes depósitos cavados nas rochas. Nos desertos arenosos a água corre para as zonas baixas formando poças naturais. As donas de casa aproveitam estas poças e vão lá com as suas bilhas buscar água. Passado algum tempo só podem encontrar água barrenta, remexida pelos animais. Também nas cisternas cavadas nas rochas a água, estando parada, pode ficar, em parte, estragada. Assim a fonte da água viva é um grande tesouro. Quem possui uma tal fonte, normalmente comercializa a água. Manda homens, às vezes para longe da aldeia, que carregam odres às costas e gritam: «Água, água, água viva.»

Em Jeremias 2:13 lemos: «O meu povo fez duas maldades: a mim me deixaram, o manancial de águas vivas, e cavaram cisternas, cisternas rotas, que não retêm as águas.»


Muda-se a água de vaso para vaso

O sabor do vaso desaparece quando se transfere a água de um vaso para outro. Afinal de contas, a melhor bebida para matar a sede é a água pura. O vaso de barro absorve impurezas existentes na água. Ao mesmo tempo, sendo poroso, «respira» dando mais frescura à água. De certo modo o vaso de barro é uma espéce de frigorífico natural que refresca a água.

O vaso deve ser limpo

para poder ser usado. Com o decorrer do tempo certas impurezas existentes na água caem no fundo e formam lá um depósito e as paredes do vaso sedimentam-se. O profeta Jeremias fala justamente disto quando diz: «Moabe esteve descansado desde a sua mocidade, e as suas fezes repousaram; não foi mudado de vaso para vaso, nem foi para o cativeiro; por isso conservou o seu sabor, e o seu cheiro não se alterou» (Jer. 48:11).

A Bíblia é muito rigorosa ao falar do pecado. Sofonias destaca: «E há de ser que naquele tempo, esquadrinharei a Jerusalém com lanternas, e castigarei os homens que estão assentados sobre as suas fezes» (Sof. 1:12). Esquadrinhar com lanternas significa um trabalho muito cuidadoso. O apóstolo Paulo confessou: «Rejeitamos as coisas que por vergonha se ocultam, não andando com astúcia» (II Cor. 4:2). Temos de experimentar a purifição de todos os pecados ocultos. Todos os resíduos secretos da nossa vida devem ser trazidos à luz.


«Esquadrinharei a Jerusalém com lanternas»

«Bem-aventurado: aquele cuja transgressão é perdoada, e cujo pecado é coberto. Bem-aventurado o homem a quem o Senhor não imputa maldade, e em cujo espírito não há engano» (Salmo 32:1, 2). O pecado não confessado deixa sempre a sua marca, de maneira misteriosa, na vida cristã. Por isso temos de ser purificados de todo o pecado. Jeremias aponta que Deus observa a sinceridade do nosso arrependimento: «Contudo, nem por tudo isso voltou para mim a sua aleivosa irmã Judá com sincero coração, mas falsamente, diz o Senhor» (Jer. 3:10). Precisamos de cristãos consagrados que experimentaram a purificação até aos últimos depósitos da sua vida. Só os vasos limpos podem conter água pura, «que se fará nele uma fonte d'água que salte para a vida eterna» (Jo. 4:14). O nosso Salvador quer ardentemente que as vasilhas dos seus filhos estejam cheias e que andem por toda a parte apregoando: «Água, água, água viva! Venham todos, sedentos, acerquem-se da água!» É desta água que nós precisamos!

Oremos:

Nosso amado Salvador Jesus Cristo. Damos-te a procuração para nos examinares com a lanterna da Tua palavra: Senhor, mostra-nos os resíduos da nossa vida, todas as raízes de amargura e egoísmo, para que tenhamos menos o nosso próprio sabor e mais o cheiro suave do Teu conhecimento. Senhor, esvazia-nos de tudo o que é de nós e dá-nos de novo a água viva que vem do alto. Transforma-nos em vasos que tu possas usar no trabalho do Teu Reino. Ámen.

QUANDO O VASO ESTÁ PARTIDO

«Sou como um vaso quebrado».

(Salmo 31:12)

A mensagem mais confortadora da oficina do oleiro é que o barro nunca se torna inútil. O vaso que o oleiro está a fazer pode quebrar-se nas suas mãos. O oleiro, então, amassa esse barro de novo e põe-no na nova massa. O vaso pode partir no forno ou quando utilizado, mas nunca fica abandonado. Só fica à espera da sua vez. Um dia o oleiro manda o aprendiz esmagar' os vasos partidos em pequenos fragmentos. É um trabalho importante que exige muito cuidado. Num dia o aprendiz consegue esmagar só uns 6 a 7 quilos de vasos com o seu martelo. Depois os fragmentos passam pela peneira e o resultado é uma farinha seca cujas partículas têm o mesmo tamanho. Os melhores objectos são feitos aproveitando esta farinha.


Sou como um vaso quebrado

Na França há grandes fábricas que fabricam vasos de barro só para serem quebrados no pátio da fábrica. A farinha obtida desta maneira aproveita-se noutras fábricas onde é misturada com a nova massa. O barro pode ser cozido e esmagado muitas vezes e a cerâmica que se faz desta maneira é cada vez melhor. Só as cores podem incomodar na nova mistura, a não ser a cor de ouro, que se funde e se adapta à nova fase do trabalho.

Do mesmo modo, a obra feita por Deus fica, apesar dos desvios do homem. Mas os fragmentos que têm o carimbo do homem devem ser postos de lado, sem misericórdia, para que não importunem também no futuro. A cor do ouro puro, isto é, as experiências e pensamentos vindos do próprio coração de Deus servem na construção da nossa vida.

É extraordinário como Deus tem muito a dizer justamente aos «quebrados». O capítulo 61 de Isaías começa: «O Espírito do Senhor Jeová está sobre mim; porque o Senhor me ungiu, para pregar boas novas aos mansos: enviou-me a restaurar os contritos de coração...» Também em Ezequiel 34:16 o Senhor diz «A perdida buscarei, e a desgarrada tornarei a trazer, e a quebrada ligarei, e a enferma fortalecerei...» Mesmo o jovem, ainda que aparentemente forte e cheio de vida, vive desta mensagem. Nunca me esquecerei duma reunião para homens em que, aos 17 anos, pela primeira vez ouvi este tipo de evangelho. Um dos pregadores disse: «Para Deus serve qualquer pedaço de barro, por mais pequeno que seja - desde que seja limpo. Ele enche-o com a sua bênção.»


Aprendiz esmaga vasos quebrados

Os velhos judeus usam de vez em quando a abstracção

«Shvirat hakeliim», ou,
«a lei do partir do vaso».

Toda a natureza está tão cheia da glória de Deus que o homem limitado não é capaz de compreender essa glória, explicam os rabis. Por isso o Santo Deus - louvado seja o seu nome - partiu a sua revelação em pequenos fragmentos. Por meio deste «partir do vaso» podemos compreender a revelação de Deus. Ocorre o chamado «zimsum hamakom» isto é, a «re dução do lugar» - a essência de Deus manifesta-se em porção reduzida. Na natureza quebrada os erudi tos encontram dez «sfiras» ou cifras diferentes. Deus «reduz a sua essência» e esconde toda a sua riqueza em cada uma destas cifras. São em hebraico: «chochma, bina, da'at, chesed, gruva, tíf'eret, nezahh, hood, Jesood e malchut». Os primeiros cinco são em português: sabedoria, entendimento, conhecimento, graça e obras poderosas. O apóstolo Paulo parece enfatizar quase as mesmas coisas, quando fala sobre os chamados «carismas» que Deus dá para a edifica ção da sua igreja. O segredo do «partir do vaso» está em que o homem é capaz de se aperceber da glória de Deus só a partir de fragmentos da vida.

Por isso Deus providencia a quebra no homem. Na maior parte das vezes só no meio das ruínas da vida é que aprendemos a dar toda a glória a Deus. E parece que Deus faz os vasos mais úteis dos homens que Ele esmagou uma vez após outra.

Uma das características básicas do homem é que

sempre se opõe à vontade de Deus

A carne e o sangue lutam contra Deus. O homem natural não aceita aquilo que vem do Espírito de Deus. Quando lutamos contra a vontade de Deus, lutamos sempre contra o que seria melhor para nós. Isaías (45:9) diz: «Ai daquele que contende com o seu Criador! o caco entre outros cacos de barro! Porventura dirá o barro ao que o formou: Que fazes? ou a tua obra: Não tens mãos?»

As vezes ouve-se dizer que a religião é ópio para o povo. Esta afirmação não corresponde à experiência religiosa geral. Alguns psicanalistas modernos afirmam: A fé não 'pode ser uma reflexão da satisfação concretizada porque no início a experiência da fé vive-se de forma desagradável e o homem tenta opôr-se-lhe. Assim podemos dizer que, pelo contrário, a irreligiosidade é que é ópio para o povo. O homem percebe, instintivamente, que Deus requer a verdade até a respeito das coisas mais ocultas. Somos apanhados em pecado. Só podemos experimentar a libertação dos pecados quando nos quebramos diante de Deus.


Apertura ad coelum

Por isso fazemos frente ao partir do nosso vaso. No começo sentimos sempre a presença de Deus como algo um pouco desagradável. Um pastor que tinha alguns conhecimentos em psiquiatria, descreveu a conversão do homem: «Quando o nosso mundo interior se quebra e explode, sucede, então, uma `apertura ad coelum', uma `abertura até aos céus'. Estes é um passo para o sobrenatural do qual não se apodera à força. É sempre uma graça de Deus.

Quando vergamos à poderosa mão de Deus e nos deixamos partir pelo Grande Oleiro, primeiro toda a nossa vida íntima explode - mas no meio das ruínas da vida, de repente, experimentamos a «abertura até aos céus». Lembro-me como um alcoólico desesperado ficou livre da maldição da sua vida. Quando depois leu os salmos, encontrou-se a si mesmo no versículo seis do salmo 34: (Clamou este pobre, e o Senhor o ouviu; e o salvou de todas as suas angústias.»

O passo para o sobrenatural

também nos abre toda a criação com as suas maravilhas. Tomamos parte na «gloriosa liberdade dos filhos de Deus». Evidentemente o evangelho é o melhor medicamento para o stress. «Se pois o filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres.» «Estai pois firmes na liberdade com que Cristo nos libertou, e não torneis a meter-vos debaixo do jugo da servidão.»

O apóstolo Paulo diz em II Cor. 10:5 que nós levamos «cativo todo o entendimento à obediência de Cristo». Ao ler os Actos podemos ver que, por exemplo, ao falar nó Areópago, ele aproveitou as observações que fizera nas redondezas e aplicou-as na sua mensagem. Segundo este exemplo o cristão pode observar a ciência da sua época e incorporá-la nas suas observações espirituais.

O conhecido psiquiatra, C. G. Jung apresentou em várias ocasiões uma observação estranha: «Nas aflições de cada homem com mais de 35 anos de idade existe sempre algum problema religioso que tem de ser tratado.» Jung também verificou que «dos seus pacientes ficaram definitivamente bem apenas os que tinham experimentado o despertamento religioso».

O homem aflito, adoentado no seu íntimo, pouco a pouco perde o contacto com o meio ambiente em que vive. Algo nele fica mecanizado. Não sente nem a primavera nem o verão; não vê os lírios do campo nem houve o chilreio dos pássaros; ao mesmo tempo deixa de ouvir a fala do seu íntimo e a sua consciência fica morta. Torna-se irascível. A capacidade de se rir de bom gosto desaparece. Quando os outros lhe falam, ele só ouve as palavras que lhe estimulam o íntimo. A partir destas palavras estimulantes forma ideias que não têm nada a ver com o assunto tratado.

Como é diferente o ensino de Jesus Nele há o murmúrio do vento das montanhas e a extensão das searas e dos campos da Galileia. Nele há o chilreio dos pássaros e o cintilar das ondas de Genesaré. O seu ensino é inteiramente puro e são. Tudo o que é doentio está longe dele. Por isso tem resposta para a angústia da alma aflita.

O homem de hoje é como Jacob sem escada. A ligação com o céu desapareceu. Por conseguinte, não há anjos servidores a subir e descer. É completamente errado supôr que o homem, o ser eterno, possa viver sem a fé e a consciência. A fé abre os aparelhos de ventilação do nosso íntimo. Ela é que ensina a perdoar e a pedir perdão e assim cria novas condições para a comunhão entre as pessoas imperfeitas.

Na arte de se esconder

o homem é mestre. 'O primeiro homem escondeu-se entre as árvores do paraíso e ainda hoje o homem não quer responder à pergunta apresentada já então: «Onde estás?» Deus é maravilhoso e normalmente dá-nos bastante tempo para examinar o nosso íntimo - e ainda em ocasiões diversas. Mas apesar de tudo não nos queremos ver tal como somos, até ao momento em que os investigadores da bancarrota comecem o seu trabalho na nossa vida espiritual. São mortos os que caem antes do fim embora Deus esteja sempre pronto para os acudir. Há pouco uma pessoa admirava-se porque os hospitais psiquiátricos estão cheios de meninas de bom aspecto. Elas aprenderam a conhecer o estado desesperado do seu coração, mas desconheciam aquele que dá «uma viva esperança» aos desanimados.

O apóstolo Paulo experimentou: «Eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum» (Rom. 7:18). Ezequiel afirma: «Assim diz o Senhor - quanto às coisas que vos sobem ao espírito, eu as conheço» (Eze. 11:5). O homem angustiado sabe que é completamente mau. Dentro de certos limites esta experiência é saudável. Para nós, então, é difícil condenar os demais e morder na pele do próximo, mesmo da maneira mais subtil. E quando já não temos nada em que basear a nossa vida, a graça de Deus, rica e libertadora, abre-se. Quando somos despidos da nossa própria importância, existem, então, condições para melhorar as relações com os outros. Como são emaranhadas muitas vezes as relações humanas em casa e no trabalho devido ao facto de sermos tão presumidos a respeito de nós mesmos. Por isso não queremos confessar os nossos defeitos e pecados. Todavia, não é preciso ser sábio para ver como somos no nosso íntimo. Fugir à verdade é fatigante. O salmo 32 diz: «Enquanto eu me calei, envelheceram os meus ossos pelo meu bramido em todo o dia», e então: «Confessei-te o meu pecado e tu perdoaste a maldade do meu pecado. » A angústia enfraquecedora descarrega-se, quando se confessam os pecados. Não vale a pena esconderse dos olhos examinadores de Deus.

«Cada um tem o seu pacote»

diz um ditado hebraico. Cada um tem épocas escuras durante as quais uma noite interminável parece dominar a vida. Alguns católicos falam da chamada primeira e segunda noite do cristão. Somos salvos da noite do pecado, mas, passado algum tempo vem uma «segunda noite», o tempo de provas, que ensina a analisar os valores da vida de novo e da maneira mais realista. Uns têm de abrir o pacote do sofrimento de repente, outros fazem o mesmo no correr dos anos.

A angústia quebra sempre alguma coisa definitivamente no nosso coração, e com certeza de propósito. Ficamos parecidos com a cerâmica que propositadamente é feita de tal maneira que parece gretada. Recordo-me da época quando o meu filho, então com quase 7 anos, esteve doente desde o Outono de 1958 até Maio de 1959. Fizeram-se-lhe muitas punções na espinha dorsal e além disso o nosso querido filho teve de aguentar umas 700 injecções. Depois ficou cego e finalmente inconsciente uns cinco meses. Antes disso ele, numa visão muita viva, viu Jesus tal como a Apocalipse o descreve, com «cabelos brancos» e viu também anjos atrás d'Ele. O rapaz sabia que ía morrer em pequeno. Embora tenhamos sido suficientemente consolados no meio da dor infindável, mesmo assim sentimos o que cada um sente numa situação dessas: a nossa insantificação geral e impotência completa. A única palavra de Deusa que nos podíamos agarrar, eras Sofonias 3:17: «Calar-se-á por seu amor».

A tarefa do pastor é talvez diferente da das outras pessoas. Arão teve de levar «os nomes dos filhos de Israel no peitoral do juízo sobre o seu coração» (Ex. 28-29). Teve também de ter uma lâmina em que foram gravadas as palavras: «Santidade ao Senhor». Os sacerdotes do Velho Testamento puderam possuir o conselho dado a Arão: «Na sua terra possessão nenhuma terás e no meio deles, nenhuma parte terás: eu sou a tua parte e a tua herança.» (Num. 18:20). Enfatiza-se a mesma coisa em Isaías: «Esta é a herança dos servos do Senhor, e a sua justiça que vem de mim, diz o Senhor» (Is. 54:17). E Malaquias confirma: «Os lábios do sacerdote guardarão a ciência, e da sua boca buscarão a lei, porque ele é o anjo do Senhor dos Exércitos» (Mal. 2:7). Quando às vezes encontro pessoas cuja angústia é transbordante, é maravilhoso ver como o facto de pertencer ao mesmo «clube de sofredores» cria pontes entre os corações. Tais pontes nenhuma palavra humana poderia construir. Deus é aquele «que nos consola em toda a nossa tribulação para que também possamos consolar os que estiverem em alguma tribulação, com a consolação com que nós mesmos somos consolados de Deus» (II Cor. 1:4).

A vida é uma grande sucata

A vida desfaz-nos. No entanto, foi muito consolador ouvir o que disse o engenheiro duma fábrica metalúrgica quando estávamos no pátio da sucata da fábrica: «90% do melhor aço da nossa fábrica é feito desta sucata. » Um grande íman veio da fábrica pelos trilhos e tirou do montão de sucata uma carga enorme a fim de levá-lo para a fundição. Do mesmo modo o amor de Deus encontra-nos deformados. De outra maneira seria impossível agarrar-nos. Esse amor atrai-nos para si. Mas ele tem de nos conduzir para a fundição antes de poder fazer algo mais em nós. O aço lamina-se entre os cilindros metendo-se depois o bloco incandescente na água para o temperar. O melhor aço, destinado a certos fins tempera-se no petróleo. Assim os ferros-velhos transformam-se em aço refinado, com uma grande capacidade de resistência.

Numa reunião tive de filar a um grupo de inválidos de guerra. A maioria -não podia mover-se. Quando entrei na sala da, reunião um dos homens disse-me: «Esta malta já não presta para nada.» Entre esses homens experimentei como o amor de Deus descia até nos. u homem inutilizado como a sucata compreende mais do que uma pessoa superficial.

O partir do vaso, «shivirat hakeliim», diz respeito a todos. No entanto, não podemos ficar no ponto de pendurar as nossas harpas nos salgueiros da auto-compaixão e permanecer com as penas nas margens dos rios de Babilónia. O sofrimento é só uma paragem na viagem.

Porque somos limitados

não percebemos as obras de Deus
em vastos contextos

São poucos os que sabem ler a história como uma obra de Deus. Muitos não são capazes de ver a providência de Deus nem sequer na história de Israel. Nem sempre percebemos a seriedade da movimentação influenciada pela União Soviética no Próximo Oriente. Muitas palavras extraordinárias de Jesus tornaram-se axiomas para nós, sem aquele poder revolucionário que ainda está contido nelas. Embora todo o ensino de Jesus fale da Sua soberania e divindade, trocamos nos mercados do mundo a doutrina d'Ele pelas coisas medíocres. Deveríamos ser o sacerdócio real e embaixadores de Deus, mas comportamo-nos como se estivéssemos ao serviço de algum sucateiro t1 noção dos valores esta d desaparecer. Se uma dona de casa, mesmo crente, deixa cair uma chávena de porcelana chinesa sem a partir - oh que alegria durante toda a semana! Deixamos correr as coisas que são realmente importantes e preocupamo-nos muito com nulidades; coamos um mosquito mas engolimos um camelo.

Apesar disso é formidável e encorajados o facto de Deus se glorificar mesmo nas pequenas coisas diárias. Por isso Ele permite que a nossa vida fique em fragmentos. Assim em cada pedaço, em cada «sfira» , está escondida toda a maravilhosa benção de Deus. Os nossos olhos deviriam abrir-se da maneira certa, «ad coelum». Um provérbio hebraico diz: «Não abras as tuas janelas para a escuridão». Quando a graça de Deus encontra o homem, ele começa a ver os «pedaços« da vida sob uma nova luz. Ela é como uma rede e por cada malha um novo mundo é aberto. Somos como uma criancinha que se admira do avesso do tecido que a mãe está a fazer: fios cruzamse, em desordem, mas depois de subir ao colo da mãe ela vê de repente o lado direito do tecido. Uma vez um amigo meu, um israelita, relatou-me como se fazem os tapetes persas: o artista está sentado do lado direito e decide pela cor de cada fio a enodar, enquanto o ajudante somente pode ver o avesso. O ajudante pode ver quais foram os propósitos do mestre só quando o tapete está pronto.

«Para Deus não há casos sem esperança»

é uma frase muito usada. Esta afirmação é-nos tão familiar que já não tem sentido para nós. Por isso ficamos no nosso círculo fechado sem tentar sequer sair dele. Os pais sentem que não conseguem criar condições de vida tão boas como o vizinho. E será que isso tem alguma importância? As mães têm um complexo de inferioridade porque sentem que não sabem educar os filhos. Os jovens ficam amargos porque não conseguem passar as provas da vida tão bem como os outros. Em alguns casos o desapontamento faz o jovem cair deliberadamente em libertinagem. Toda a espécie de poluição da incredulidade está a encher o mundo e afastar as pessoas da vida que Deus lhes oferece. A publicidade cria coloridos castelos no ar e objectivos quiméricos nos quais o homem se espelha. Porque não há tempo para orar e ouvir a voz de Deus, o espírito fica aflito no seu recanto onde pode ser posto facilmente fora de combate. Numa situação destas toda a referência a Deus é tomada como uma acusação. E o resultado é um vazio sem fim.

Certo homem viu uma gravura duma olaria. A um canto encontrava-se um montão de vasos partidos. A imagem afligiu-o durante muitos anos. Ele identificou-se com esses vasos partidos e viu que não tinha muita esperança na sua vida. Falou do assunto com o seu conselheiro espiritual. O conselheiro, Um leigo, passou a ficar afligido também pela mesma imagem. Por acaso falou-me do problema. Pude, então, transmitir-lhe uma mensagem libertadora: os melhores vasos são feitos a partir dos vasos quebrados. A questão não é se somos valiosos para Deus, mas sim, se o amor de Deus é valioso para nós. Deus é tão rico que não precisa dos nossos sucessos. Podemos sempre recomeçar. Diante de Deus nunca nos tornamos mestres, mas podemos habituar-nos a começar de novo.

O primeiro livro espiritual que tive oportunidade de ler depois da minha conversão foi o do sueco Frank Manghs: «Han borjade om igen», «Ele começou de novo». Foi uma leitura sensacional pois ao mesmo tempo estava a aprender as noções rudimentares da nova vida. Desde então tenho reparado que na vida espiritual temos de recomeçar e ficar no lugar de discípulos continuamente. Embora sejamos diligentes como se diz no salmo 119, «tenho em tudo como rectos todos os teus preceitos», encontramo-nos muitas vezes em novas situações diante das quais notamos a nossa incapacidade, chegando até a ficar quebrados. O coração insantificado não quer submeter-se à vontade do Espírito Santo. Jesus disse a Pedro: «Quando eras mais moço, te cingias a ti mesmo, e andavas por onde querias: mas, quando já fores velho, estenderás as tuas mãos; e outro te cingirá, e te levará para onde tu não queres» (Jo. 21:18). A obra do Espírito Santo despe o cristão da sua auto-suficiência. O homem experimenta que não é sustentado pelo seu próprio orçamento. Torna-se cada vez mais dependente do «crédito» que vem do alto; o Espírito Santo cingiu-o. Tal «sentimento de vazio» é bom vara nós, pois torna-nos em úteis filhos de Deus.

O valor do quebramento

é que assim Deus recebe toda a glória. Quando Gideão foi escolhido para realizar certas tarefas de Deus, ele próprio sentiu que era o menor na casa de seu pai e que a sua família era a mais fraca em Manassés. Mesmo assim o Senhor teve de dizer-lhe: «Muito é o povo que está contigo» (Juí. 7:2)! Deus fez assim para que Israel não pudesse gloriar-se contra Ele dizendo: «A minha mão me livrou.» O exército foi reduzido de 32000 homens a 300 homens. Em toda a vida espiritual passa-se a mesma coisa.

Aconteceu uma vez na nossa escola em Jerusalém que o professor Viktor Smadja recebeu uma tarefa estranha do seu pai espiritual, do missionário Paul Ferrée que tinha fundado várias fábricas de cerâmica na Tunísia. Ao passear nos arredores de Jerusalém ele tinha visto uma olaria abandonada em cujo pátio havia um grande montão de potes partidos. Ferrée exortou o professor a contactar com o dono da olaria e a comprar os potes em cacos: «Paga-lhe o que ele pedir, seja quanto for.»

Victor Smadja encontrou o dono, já de idade, que ouviu a proposta: «Até o pátio fica com melhor aspecto depois de ser limpo. Ofereço-lhe dez liras, vinte...» Assim avançou o negócio. Finalmente o velho disse sorrindo: «Meu jovem, prefiro dar o meu braço do que este montão de barro, a melhor matéria que possuo. » O velho oleiro compreendeu o valor do barro.

Quanto mais vezes cozido e esmagado melhor fica o barro. Quando o barro atravessa chuvas e tempestades, calor e frio, quando é recalcado pelos homens - torna-se cada vez melhor. De certo modo ele absorve as características da natureza. Quando tal barro, esmagado talvez várias vezes, é misturado com uma nova massa, fazem-se então os melhores objectos.

O barro esmagado mistura-se com o novo

Os pedreiros sabem que aspecto tem o tijolo resistente ao fogo por dentro. Se partirmos um tijolo destes com o martelo de pedreiro, podemos ver na face partida granizos de várias cores, castanhos e amarelos, encarnados, até pretos. Estes granizos já passaram pelo fogo, e por isso este tijolo aguenta-se em temperaturas altas do forno sem se quebrar. Depois de desfazer o velho forno, o oleiro utiliza ainda as partes interiores, «abandonadas», misturando-as de novo com o seu melhor barro. Estas partes já passaram pelo fogo talvez 60 a 100 vezes. O oleiro também sabe que o forno velho é melhor do que o novo porque aguenta melhor altas temperaturas.

Os árabes nómadas põem sempre um pouco de pão velho na massa nova. Nos países nórdicos faz-se o pão azedo da mesma maneira. No recipiente deixa-se um pouco de massa que azeda a nova massa. Estes recipientes nunca se lavam profundamente. Os árabes, quando constroem novas casas, aproveitam madeira velha. Em geral, querem sempre misturar algo velho com o novo. Pensam que isso é uma condição de benção. Embora Jesus tivesse ensinado que a mensagem nova exige uma nova moldura, assim como o vinho novo dever ser metido em vasilhas novas, isto não significa, porém, que tudo o que é velho deva ser abandonado. Mesmo o chefe de família sabe tirar, daquilo que tem, coisas novas e velhas (Mat. 13:52). Mas, esse velho, antes de ser ligado às coisas novas, passa pelo esmagamento.

Experimentamos o mesmo nas mãos do Mestre. A providência anterior não se põe de lado, realizando-se apenas o quebramento e a peneiraçâo. Só depois é que os novos planos de Deus se podem realizar. Não deveríamos ser tão modernos, que abandonemos tudo o que é velho, mas também não tão conservadores que neguemos o valor de tudo o que é novo. Ao misturar algo velho com todas as coisas novas, os árabes, afinal de contas, são muito modernos, pois assim se faz nas casas dos artistas mais elegantes. Tal modernismo é recomendável também na vida da igreja. As coisas experimentadas e boas não devem ser postas de parte.

O vaso pronto devia poder reter tanto a água quente como a fria. O cristão devia ser fiel tanto nos dias comuns como nos extraordinários. O reino de Deus não precisa de solistas, de mestres de cerimónias, que têm sempre algo extraordinário na sua algibeira. Precisamos de filhos de Deus fiéis que podem assumir responsabilidades e que não frustram as esperanças mesmo que o vento seja oposto. Se a nossa sensibilidade espiritual se corrompe pensamos sempre que somos nós que estamos a manter algo essencial na igreja e que somos insubstituíveis. Então é altura de partir os nossos vasos de novo.

Lembro-me de ter dito a um amigo meu, logo depois da minha conversão: «Não empregues essa palavra `graça'. Diz a mesma coisa de outra maneira.» Mas afinal de contas, é exactamente a graça que está em questão. A Bíblia repete muitas vezes que a graça de Deus é grande para connosco. A carta aos Hebreus recorda-nos «que o coração se fortifique com a graça» (13:9). A graça divina é realmente o melhor remédio para o homem aflito.

Mas, acontece estranhamente que

a graça se pode tornar lei para o homem

Vê-se isto muitas vezes no aconselhamento espiritual. Primeiro a lei malha o homem e leva-o ao arrependimento. Mas mesmo assim ficamos «debaixo da lei». Dizemos: «Não sou suficientemente bom e santificado para que Deus me possa aceitar. Ainda que tenha trazido todos os meus pecados à luz e embora tenha orado e tenha procurado ler a Palavra; não ouso pensar que possa ser realmente um filho de Deus.» Atormentamo-nos a nós mesmos com o que fizemos ou deixamos de fazer. Cremos na graça, mas não temos coragem de possuir a graça de Deus antes que nos melhoremos e nos restauremos a nós próprios. Mas a graça divina é tão grande e tão vasta que nunca se esgosta. Podemos lembrar: Deus aceita-nos justamente com a nossa insuficiência. Podemos crer que Deus nos aceita por causa da morte expiatória de Jesus, mesmo que não haja nada de aceitável em nós. Nunca somos capazes de cumprir as exigências da graça pois a graça não conhece exigências. Nisto é que se comprova o poder da graça.

A graça deve ser graça portadora. Ela não deve sufocar-nos.

Certa vez vi um filme sobre homens que estavam a fazer surf. É um dos desportos mais belos que a natureza concede ao homem. Os homens ou remam ao mar alto ou partem da ponta de algum cabo Esperam até que uma onda alta e em ligeiro declive, vinda atrás deles, os levante. Dão, então, umas remadas fortes. Mantendo-se no lado certo da onda eles chegam à margem com uma velocidade vertiginosa. Os que andam com barco motorizado passam pela mesma experiência. Em cima da «onda portadora» pode andar-se como se se descesse por um declive e até se gasta menos combustível! Tenho às vezes a sensação que, como cristãos, muitas vezes nos apoiamos no lado errado da «onda portadora». Tomamos a graça como uma lei e esforçamo-nos para atingir a onda que está a fugir diante de nós, mas nunca conseguimos alcançar o que queremos. Só nos debatemos inutilmente até perdermos as forças. Deveríamos esperar pela próxima onda do mar da graça que nos levanta de repente e nos leva com ela.

Devíamos basear a nossa fé naquilo que Deus é e não em nós mesmos. II Tim. 2:19 diz claramente: «Todavia o fundamento de Deus fica firme, tendo este selo: O Senhor'-conhece os que são seus, e qualquer que profere o nome de Cristo aparte-se da iniquidade.» Se trouxermos os pecados e as injustiças à luz podemos depositar a nossa confiança em que «o Senhor conhece os que são seus». Ele é maior do que o nosso coração e conhece todas as coisas. Ele sabe quanto é que o meu vaso aguenta na forja da vida. Ele não deixa que sejamos provados acima das nossas forças. Quando nos malha, também sabe qual é o Seu objectivo - e eu nem sempre preciso de o compreender.

A minha mãe não quer viajar de barco porque não sabe nadar nem de avião porque não sabe voar. Mesmo assim consegui uma vez levá-la no meu barco motorizado. A minha filha saltitava na proa toda contente, alegrando-se por cada oscilação do barco, enquanto a minha mãe, tremendo de medo, se agarrava às bordas do barco. Porém, chegámos bem ao nosso destino, todos ao mesmo tempo. Alguns cristãos tem uma consciência receosa e tremente diante de Deus enquanto os outros parecem avançar sem preocupação alguma. No entanto, o essencial é estar no barco que leva ao destino. O homem angustiado que quer estar em Cristo, pode confiar que Ele o leva ao destino.

Jesus passou pelo esmagamento

«Porque naquilo que ele mesmo, sendo tentado, padeceu, pode socorrer aos que são tentados» (Heb. 2:18). O nome hebraico de Getsêmani, «gat shmanim significa o «lagar de azeite». Não foi permitido misturar fogo estranho com o fogo do templo do Senhor, isto é, não foi permitido usar o mesmo óleo que se usava nos templos de ídolos. Por isso os judeus tinham plantado oliveiras em todo o Monte das Oliveiras. As azeitonas que as oliveiras produziam foram tratadas exactamente segundo as instruções dos sacerdotes para que fossem cultualmente puras. As azeitonas eram espremidas nos lagares de azeite em Getsêmani.


Varejamento de azeitonas

Na casa do oleiro vimos que o «barro se insurge contra a força». As azeitonas falam da mesma lei da vida espiritual: elas são pura e simplesmente apanhadas ao se varejar as oliveiras. Quando a azeitona é madura, cai facilmente. Chegam, então, as varejadoras e sacodem as oliveiras com uma vara. Antes disso estendem panos por baixo das árvores. As azeitonas maduras caem como as primeiras gotas dum aguaceiro para o chão. Assim também recebemos, de certeza, a benção de Deus no tempo devido. Não vale a pena utilizar a vara cedo demais - isso só danifica a árvore.

Em Getsêmani o coração de Jesus foi espremido. A sua angústia tornou-se em gotas de sangue. Ele passou pelo baptismo de dor: «Importa, porém, que seja baptizado com um certo baptismo: e como me angustio até que venha a cumprir-se» (Lc. 12:50). O sofrimento de Jesus, no entanto, criou o óleo, pelo poder do qual todos os templos no mundo recebem a luz do evangelho puro. O próprio vaso de Jesus foi destinado a ser partido. Mas este «partir do vaso» fez com que os fragmentos se espalhassem por todo o lado, contendo cada um destes fragmentos a bênção do reino de Deus. O nosso coração abre-se «até ao céu» e o amor de Jesus que «se esvaziou», torna-se claro para nós. Este amor não nos obriga - ele próprio sofre o que nós devíamos ter sofrido.

A mensagem da casa do oleiro

pode tornar-se a conda portadora» da vida apenas se obedecermos à voz de Deus. Ele queria transformarnos em «vasos de benção». Mesmo assim a verdade é que «temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus, e não de nós». Como vou responder às perguntas que surgiram do coração? Será que estou disposto a ficar nas mãos de Deus sem me revoltar? Aceito o papel do barro ou não? Será que Ele me pode moldar segundo a Sua vontade? Será que concordo em estar deposto se Ele prefere assim? Deixo-me ser levado à Sua forja? Será que Ele pode continuar a Sua obra em mim até eu ser um vaso que «canta e retine» e que é «transparente»? Será que Ele me pode esmagar quando Ele quiser começar uma nova fase na minha vida? Será que vou trabalhar onde Ele quer? Será que Ele me pode limpar os «sedimentos» do coração, toda a amargura que se depositou ali? Será que Ele pode esvaziar do «vaso ao vaso», para que o meu próprio saber desapareça da minha vida, pelo menos um pouco? Pode Ele esvaziar-me o coração até eu ficar como uma «criança desmamada ao colo da mãe», sem mais desejos meus? Será que Ele até pode escolher o lugar onde me vai usar? «Ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para honra e outro para desonra?» (Rom. 9:21). Poderá Ele encher-me com a água da vida?


«Água viva!»

Não deveríamos exagerar quando respondemos a estas perguntas. O 'oleiro vê «através do vaso». Depende da atitude do nosso coração a espécie de tesouro que Deus nos pode confiar. Ele «até ficou cansado por causa de nós». Mas mesmo assim Ele queria aperfeiçoar a boa obra que começou em nós. Um poeta finlandês, Aaro Hellaakoski, descreveu muito bem os sentimentos duma pessoa nas mãos do Grande Oleiro. Depois de uma grande luta, ele, ao fim da sua sida, acabou por crer. No momento da morte a família estava reunida ao pé do seu leito e em conjunto oraram o Pai Nosso. Nos «dias da forja» escreveu as seguintes palavras que nunca desvanecem:

«Deus, Espírito, não serei o único
para quem é difícil estar na tua forja,
arder como o ferro no fogo,
encurvar-se muito, tornar-se mais

[pequeno

ficar cada vez mais pobre.
Mas não há outro remédio
pois só tu nos sopras a centelha,
a nós que somos frígidos e endurecidos.

Deus, Espírito, no calor da tua forja
e agarrado pela tua tenaz estou

[esgotado.

Tu não te cansas e confias
que algum dia vais encontrar debaixo

[da marreta uma obra

que parece mais preparada do que esta
que agora está a chispar nos teus

[dedos.»

«Jumala, Henki, en lie ainoa, jolla
vaikea on sinun ahjossasi olla,
paahtua niinkuin lietsottava rauta,
taipua paljoon, kasvaa pienemmäksi
tulla hetki hetkeltä köyhemmäksi.
Muttei auta, muttei auta,
sinähän yksin puhallat kipínän meihin
kylmiin, kovettuneihin.

Jumala, Henki, ahjosi Kuumuudessa
uupunut olen ja pihties puristimessa.
Sinä et väsy, et putoa uskostas
ett' olet nostava kerran moukarin alta
työn, joka näyttää valmiimmalta
kuin tämä, joka nyt kipunoi sormissas.»


«Ele até ficou cansado por causa de nós»

Oremos:

Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Queremos agradecer-te porque tu nos aceitas para o teu serviço tal como somos, partidos e estragados. Senhor, não temos coragem de pedir que um tal vaso possa ser usado na tua casa - mas mesmo assim queremos pedir que tires da nossa vida o que, de maneira errónea, vem de nós e que inquieta o próximo. E se ainda nos quiseres unir, vasos esmagados, aos teus novos planos, molda-nos, então, de novo e coloca-nos sobre a Tua mesa e na tua forja. Sabemos que em todo o caso a Tua vontade é sempre a melhor. Por isso deixamos-te a conduzir a nossa vida. Senhor, sabemos que não querias usar a força. Transforma-nos em vasos úteis para a tarefa que nos queres confiar. Confiando em Teu nome e amor. Ámen.

To the beginning